Páginas

05 junho 2007

Expressividade na Dança







Resolvi, após um tempo sem escrever para o blog, abordar um tema que me anda a preocupar. algo que me tem retirado a pouco e pouco aquela alegria de dançar que antes parecia transbordar do meu corpo. Várias perguntas se impunham na minha mente: "Será que perdi o jeito?", "Será que perdi o gosto?", "Será que daqui não vou passar mais?", "Será que deveria desistir?"...porque não compreendia o que se passava comigo, porque não tenho aquela confiança com quem me ensina esta arte a ponto de ir a correr desabafar...porque achava que talvez estaria a exagerar. Inúmeros factores poderiam despoletar esta aparente falta de jeito, concentração, gosto. Mas será que foi mesmo preguiça ou algo mais? Às vezes é-nos exigido mais do que podemos dar naquele momento. Coisas que sem conhecer a fundo cada caso, nao se pode julgar. A dança deveria nos libertar e aprisionar num misto de exigencias e inseguranças. Mas será que nos conseguimos libertar a 100% de tudo o que nos magoa, atormenta, cansa...enfim...de tudo o que é exterior ao nosso trabalho na dança? Porque não vamos levantar pesos, vestir um kimono e atacar alguém, para que assim não faça diferença a nossa expressão facial e elegância dos movimentos.

Quando iniciamos a dança, os professores concentram-se, geralmente, na técnica: a forma correcta de fazer um "hip lift hip drop", um "shimmy", a forma correcta de isolar um "hip circle" (a que chamamos de "círculo da lua"), de produzir uma ondulação fluida do corpo, de juntarmos um "shimmy" a outros movimentos. A técnica é deveras importante, pois sem esta a dança não faria sentido. Uma técnica má poderá mesmo causar graves lesões no corpo. Mas apenas técnica nao chega. A dança é uma expressao artistica: expressividade, emoçao, alma, espirito...Se não pomos a nossa alma na dança, provavelmente tal se deve a nos termos deixado controlar em demasia pelo lado lógico e organizado do nosso cérebro. Culpada. Admito. Porque ultimamente consigo deixar de pensar em 1001 coisas quando deveria simplesmente relaxar e aproveitar o momento. Coisas como "Deveria de terminar aquele trabalho para a faculdade" ou "1E...tenho só 1E na conta...que raio vou fazer agora?" sao distracções que apesar de representarem coisas importantes no "mundo fora do ginásio", não deverão entrar connosco para o treino. Claro, tambem existirão outras causas simplesmente relacionadas com a dança, como estarmos tao concentradas em fazer um determinado movimento com tanta perfeiçao que começamos a imaginar que tipo de crítica se estará a formar na cabeça da professora quando esta nos observou com um ar pensativo. Distracçoes, distracçoes...Uma mente ocupada pode nos retirar o prazer de dançar. É necessário encontrar uma forma de esvaziar a nossa mente de todas as distracções, deixarmo-nos transportar para um "mundo onde existo apenas eu, a minha musica e a minha resposta a ela". Libertar o espírito, deixar os pensamentos nem que seja por breves instantes...Cada dançarina tem a sua forma particular de o fazer, mas encontrei um método que funciona para algumas pessoas.




  • Seleccionar uma musica que nos chege ao coraçao, que conseguira transportar a nossa imaginaçao para um mundo de alegria, paixao, etc...


  • Ouvir a musica vezes sem conta, até a decorar tão correctamente que poderemos ouvi-la na nossa cabeça mesmo quando esta já não está a tocar [meninas, lembram-se de Emad Sayyah com "Tamam"? essa música infernal!]


  • Enquanto ouvimos essa música, permitir a nos mesmas sentir uma resposta emocional as melodias. Por vezes ajuda obter uma tradução das letras, se esta não for apenas instrumental. Estar atenta a que tipo de emoções essa música desperta em nós. Prazer? Êxtase espiritual? Introspecção? Tristeza?...


  • Agora dançar a música na privacidade do lar (ou outro sitio qualquer, desde que estejamos sós), e tentar alcançar a emoção que nos é provocada. Não serão necessários "sorrisos amarelos" ou choros histéricos! Apenas tentar encontrar no íntimo do nosso ser, uma resposta emocional.


  • Não se preocupem em repetir o mesmo movimento vezes sem conta ou se a junção do "shimmy" com o "circulo da Lua" foi feito com precisão. Dançem com o coração, não com a mente.
    Continuar a praticar esta "dança como resposta emocional" de forma regular na prática caseira de dança. No entanto, há que praticar separadamente a "dança como precisão técnica". De inicio, nao tentem juntar as duas. Temos de ter experiencia suficiente com ambas, para nos sentirmos a vontade com cada ponto de vista no que diz respeito a dança.


  • Finalmente, ter-se-à experiência suficiente com ambas a ponto de as juntar com sucesso. Saberemos que é a altura indicada quando deixamos as nossas emoções (respostas) tocar a música com confiança.





Aqui estão representadas várias emoções que tentaremos alcançar enquanto dançamos:








Alegria - pensamentos de: "Isto é mesmo divertido!", "Estou apaixonada e quero que o mundo inteiro saiba!" ou "Eu amo esta música!", enquanto dançamos uma melodia alegre e divertida.

Reflecção entristecida - pensamentos de: "Tenho saudades daqueles tempos felizes em que estava apaixonada mas seguirei em frente", que é o ideal para trabalhos de véu ou ondulações enquanto dançamos uma música triste.

Introspecção sonhadora - pensamentos de "Vou-te deixar olhar para mim e envolver-te na minha fantasia" (nada de pensamentos sado-masoquistas aqui por favor!), o que é perfeito para trabalho de véu e ondulações.

Força e Poder, como uma princesa guerreira (sim, pensem na Xena ou assim) - pensamentos de "Sou uma mulher, ouve-me rugir!" ou "Tenho uma arma e não tenho medo de usá-la!" são perfeitos para uso de espada ou bastão.


Provocante, em tom de Brincadeira - pensamentos de: "Aposto como não consegues fazer isto!" ou "Eu faço melhor que tu" (coisa que já vimos que a Zaahirah conhece bem :P).


Travessura - pensamentos de "Ainda falta muito para o empregado de mesa perceber que estou a segui-lo com o meu véu?" são perfeitos para espectaculos em ambientes descontraídos e ao som de musicas alegres.


Surpresa aprazível - pensamentos de: "Wow, não sabia que conseguia fazer isto!" enquanto se executa um movimento dificil.


Independencia proclamada - pensamentos de: "Aquele homem passou tantoooo para a historia!" ou "Preferia estar só a estar contigo!" ou "Tenho tudo, não preciso de ti!"



Humor - bom para recuperar apos falhanços, por exemplo, ao estar constantemente a ficar presa no veu, po-lo de parte, fazer uma pose como quem esta a disparar sobre o véu. (alguem re-al-men-te tentou isto??o_O)


Apreensão - ajuda na construçao de um drama.


Sugestões a parte...cada uma tem de encontrar a sua forma de expressão.







Deixemos de apenas dançar, há que explorar o nosso lado criativo! Desenhem, mantenham diários que reportem os vossos sonhos e tudo o mais...quanto mais tempo dedicamos a criaçao de algo, mais confortáveis ficaremos enquanto tentaremos uma conexçao com o nosso lado criativo/expressivo enquanto dançamos. Para certas pessoas, criatividade e expressao emocional são caracteristicas inatas para algumas pessoas enquanto que para outras, e algo a aprender. Mas que pode ser aprendido. O truque é tentar apaziguar a nossa mente ocupada a permitirmo-nos a sentir. De inicio isto será facil, mas após várias tentativas, assim como em qualquer outra técnica, quanto mais a trabalhamos, mas esta se afigura fácil. Não esperem transbordar paixão à primeira tentativa. Celebrem os pequenos sucessos...cada um facilitará o próximo. :)





5 comentários:

Ana das Pontas disse...

Sim senhora Shadiyah!!! Já sentia falta dos teus posts!!! Percebo o que sentes.... também já tive e ainda tenho as minhas crises de insegurança. Mas, tal como dizes, tudo passa pela cabeça. Tens de te abstrair de tudo!!! Quando danço não consigo pensar em nada triste.... apenas sinto a música e sigo-a... não é que me ache melhor que ninguém, apenas olho para mim e penso "Quem te viu e quem te vê....", ou "quero fazer isto para sempre...." Esse é o verdadeiro segredo da dança, independentemente de se dançar bem ou mal. Pude experimentar essa sensação quando dancei sozinha numa disco na Tunísia. Aí pude transmitir a toda a gente que parou (literalmente) para me ver dançar de improviso. Ali atingi o verdadeiro espírito da coisa... é assim que tem que ser... dançar e nada mais, como se o mundo fosse acabar e tivessemos apenas uma última oportunidade para mostrar que valeu a pena viver. E vai sempre valer, desde que possa dançar!! =D (a ver se agora percebem porque não gosto que gozem com as caras que faço enquanto danço, porque o faço inconscientemente... não para vocês me acharem "muita boa", ou "péssima", ou o que quer que pensem.... faço-o para mim mesma, de forma a provocar-me e a ver até que ponto chego)

Yasmin disse...

Parabens pelo o excelente conteudo!

Ana Teresa Santos disse...

mt bem! parabens pelo post. so sinto pena de ter tantos erros!!!!! ai ai q letras fica mal vista...

Anónimo disse...

Realmente está muito bem conseguido!
A dança é algo tão lindo, tão sensível e muitas vezes, tão injustamente julgada por quem sofre de limitações de sensibilidade e de mente bloqueada por preconceitos sem fundamento real...
É algo tão frágil como o amor platónico, desencadeia-nos tantas reacções e sentimentos, e temos sempre aquela dualidade de desejo de perfeição versus medo de não conseguir...

Anónimo disse...

Adorei o artigo os meus parabens!!!