Por:Luana Mello
Bailarina Clássica (EMB), Campeã Brasileira de
Dança do Ventre e bailarina Khan el Khalili.

Artigo publicado originalmente em
http://www.dancadoventre.art.br/
É claro que uma coisa leva à outra. Quem começa a estudar Dança do Ventre acaba se interessando pelo folclore árabe que é muito difundido no Brasil. Mas eu tenho algumas observações a fazer, já que luto para que o ensino da Dança do Ventre deixe de ser a casa – da – mãe - Joana.
Em algumas escolas, o ensino do folclore se une ao ensino da Dança do Ventre. As aulas se misturam, como se fosse tudo a mesma coisa. Mas não é. Dança do Ventre é uma coisa, Dança do Bastão é outra, Meleah Laff outra e assim por diante. Sou contra o ensino do folclore misturado ao ensino da Dança do Ventre. É mais uma encheção de linguiça para o programa de aulas parecer mais rico, quando na verdade ele é uma bagunça só, feita por quem não tem nenhum conhecimento sobre metodologia de dança.
É muito difícil aprender Dança do Ventre direito. Muito, muito, muito difícil. O estudo da Dança do Ventre isolada, já leva fácil fácil uns quatro anos para a bailarina dançar ‘ok’. Para dançar ‘bem’ precisa arregaçar as mangas nas aulas. Mas em alguns sistemas de ensino, no meio do ‘programa de aulas’ eles começam a ensinar coisas como Ghawazee, Hagalla ou Soumboti.
Cada macaco no seu galho!
Meeeeu Deeeeus, vocês sabem o quanto é necessário estudar para dançar bem qualquer uma dessas danças? Elas são tão ricas e tão elaboradas quanto a Dança do Ventre. Não dá para estudar tudo em um mesmo curso, a aluna aprende apenas a caricatura da dança, que na boa, não serve pra nada. Nadica de nada.
Comigo foi assim também. No começo da minha carreira me enfiaram guela abaixo um monte de folclore e eu mal sabia Dança do Ventre direito, ainda tinha erros básicos. Consequência: Conheço tooooodos os folclores, na teoria... Sei os ritmos, a história, todos os porquês, mas dançar que é bom, necas de pitibiribas. Porque não adianta nada saber pouco de muita coisa. Acabamos com uma quantidade enorme de cultura inútil e não fazemos nada direito.
Precisamos entender de uma vez por todas que a bailarina de Dança do Ventre não é obrigada a conhecer nenhum tipo de folclore. Ela conhece se quiser, mas as coisas não têm a obrigação de se misturar. Se ela quiser aprender, ótimo, vai aumentar seu repertório, seus conhecimentos, mas ninguém vai ser uma bailarina de Dança do Ventre melhor só porque conhece male - male dezenas de folks.
Os passos são semelhantes, têm as mesmas origens, mas isso não é motivo para misturarmos os canais. Acho que é bacana a bailarina conhecer de tudo, ser completa, mas EM CURSOS SEPARADOS, com metodologias distintas. Porque no final das contas, ela não dança nada direito, nem folclore, nem Dança do Ventre. E os shows viram aquela palhaçada.
A aluna de intermediário, ou de avançado, ainda está em fase de ‘maturação’, criando intimidade com a cultura árabe, não é capaz de entender e dançar um folclore com a qualidade e consciência necessárias. A maioria das bailarinas que vejo dançando um folclore, estão apenas se mexendo, porque a verdadeira essência daquela dança não está nelas. Fica uma performance plástica e sem sal, só pra brasileiro ver. E olha que nem os brasileiros acham legal...
Também é sua a responsabilidade de aprender direito.
Por isso, meu conselho - de quem foi bastante enrolada - é: Decida o que você está aprendendo e procure professores ESPECIALIZADOS naquilo. Quem sabe um pouco de tudo não sabe nada de nada. Quer aprender Dança do Ventre, então procure alguém que entenda de Dança do Ventre, quer aprender folclore, então procure alguém que entenda de folclore! Faça cursos separados, especializados e com foco.
De uns anos pra cá não ensino mais folclore, contrato uma profissional para essas aulas, porque entendi essa diferença. Quando alguém quer aprender folclore, eu digo que sei, que conheço, mas não sou especialista. Vá fazer aulas com a Polímnia Garro, com a Samya Ju, com a Nagla Yacoub, Brigitte Bacha, Maira Magno, Nasser Mohamed - citando apenas os brasileiros. Eles são especialistas, eu não.
Essa atitude é necessária para criarmos um padrão de qualidade, porque hoje o que eu vejo, é que qualquer menina que se tornou ‘professora de dança do ventre’ sai por aí ensinando Dança do Bastão, Dabke, Dança dos Pescadores... Daí já viu, é aquela beleza. Um ó. Mas o que esperar de uma professora que mal sabe fazer um básico egípcio correto e não tem a menor auto-crítica?
A importância da auto crítica
Na verdade, a culpa é metade dela porque não se avalia e acha seu trabalho bom e metade do sistema de ensino que não é bom e ‘enrola’ os alunos ao invés de correr atrás de profissionais qualificados. É uma cultura antiga de quem prefere fazer tudo com as próprias mãos e não sabe delegar.
Eu sou radical e só sendo radical teremos qualidade. Ensine apenas aquilo que você executa de forma primorosa. Enquanto não dançar Raks al Assaya com a mesma competência das bailarinas aqui citadas, não seja petulante e não ensine. Isso é pretensão e ignorância. Precisamos nos dar conta de que somos um sistema interligado. Nossa atitude individual afeta o todo.
Eu nunca perdi o respeito de um aluno por mandá-lo buscar em outro profissional algo que eu não me julgo capacitada para ensinar. Pelo contrário, minha franqueza apenas reforça que eu faço um trabalho sério e não estou na sala de aula brincando ensinar.
PS. Nosso conhecimento sobre folclore é tão ruim, que quando aparece alguém que faz a coisa direito, causa ‘aquele’ rebú, como aconteceu quando os meninos da Nagla apareceram no Mercado Persa. O negócio era tão bom que eu presenciei bailarina desesperada por aí, tentando convencer os outros de que era ruim!!! Hilááário... Ai... Eu adoro dar risada dessas coisas. Desculpem o momento sarcástico! KK